Não sou grande fã da Clara Ferreira Alves mas honra seja feita, e especialmente porque assumo pela leitura do seu texto que ela nem sequer é uma consumidora obcecada da Web, não conseguiria ter escrito melhor sobre este tema tão actual que é a "information overflow" (ou a crise da falta de atenção, prefiro eu) e as alterações sociais e de raciocínio que nos inflige, e de que poucos se apercebem. Chamou-lhe Spam Lusitano e inspirou-se (e refere-o) num artigo de Nicholas Carr de título "Is Google Making Us Stupid?".
Claramente vivemos tempos de profundas mudanças de comportamento. A forma como consumimos informação, a nossa capacidade de discernimento e de focar a nossa atenção estão irreversivelmente alteradas, sobre isto não há dúvidas. Não diria para pior porque para qualificar a mudança é preciso esperar muito, mas há definitivamente benefícios que se perderam desde a era pre-web democrática. E a minha curiosidade, porque agora tenho filhos, é assistir (e aprender?) com as gerações que já nasceram formatadas.
"information overflow" não é um conceito novo.
Há registos do início do século passado com menções aos desafios para lidar com o problema do excesso de informação trazido pelos jornais e livros.
A área da ciência da informação estuda estes assuntos.
Certo, mas o problema da Web parece-me mais complexo ainda porque não é só o excesso de informação mas é também um tipo de informação de satisfação imediata. Vide Instant Messaging, Twitter, Blogs em geral.
E é este "vício" pela satisfação imediata que pode dar origem a distúrbios relacionados com a nossa capacidade de nos conseguirmos concentrar, ou levar a cabo tarefas de fundo, ou no limite conseguir distinguir o importante do acessório.
Não me parece que haja paralelo na história recente.
Nos candidatos que entrevistamos no SAPO, costumamos terminar mais cedo as entrevistas quando respondem a uma qualquer pergunta de código com "Basta pesquisar no GOOGLE e fazer copy&paste.. do que encontrarmos"...
Por outro lado, alguém que refira como perdeu uma noite inteira a resolver um problema da treta, batendo várias vezes com a cabeça na parede e como aprendeu algo de novo com a experiência,
é quem estamos à procura. É um pouco como diz no artigo - "livros que só dão alguma coisa se o leitor der algo em troca" - a facilidade de informação é brutal para a resolução
de problemas, mas sem as bases de trabalhar no duro ao longo de vários anos, é bem mais difícil aproveitar as benesses do novo mundo.
Só a acrescentar, isto é um bocado como o artigo do Peter Norvig, ao contrário do "Teach yourself programming in 21 days", temos o "Teach yourserv programming in ten years" - http://www.norvig.com/21-days.html
E como nota final, a própria investigação está a sofrer com a facilidade com que se encontram papers. De acordo com o artigo do Economist - http://www.economist.com/science/displaystory.cfm?story_id=11745514 - o facto dos cientistas já não perderem horas a lerem papers que provavelmente não têm nada a ver com o que estavam à procura, pode resultar em menos descobertas acidentais. "Experience is what you get when you didn't get what you wanted".
Há registos do início do século passado com menções aos desafios para lidar com o problema do excesso de informação trazido pelos jornais e livros.
A área da ciência da informação estuda estes assuntos.
http://www.hno.harvard.edu/gazette/2003/02.13/03-blair.html
Tuesday, July 29. 2008 at 00:18 (Reply)
E é este "vício" pela satisfação imediata que pode dar origem a distúrbios relacionados com a nossa capacidade de nos conseguirmos concentrar, ou levar a cabo tarefas de fundo, ou no limite conseguir distinguir o importante do acessório.
Não me parece que haja paralelo na história recente.
Tuesday, July 29. 2008 at 01:03 (Reply)
A minha capacidade de concentracao/foco ruiu completamente nos ultimos poucos anos. E quer-me parecer que nao estou sozinho nisto.
Wednesday, July 30. 2008 at 00:52 (Link) (Reply)
Por outro lado, alguém que refira como perdeu uma noite inteira a resolver um problema da treta, batendo várias vezes com a cabeça na parede e como aprendeu algo de novo com a experiência,
é quem estamos à procura. É um pouco como diz no artigo - "livros que só dão alguma coisa se o leitor der algo em troca" - a facilidade de informação é brutal para a resolução
de problemas, mas sem as bases de trabalhar no duro ao longo de vários anos, é bem mais difícil aproveitar as benesses do novo mundo.
Só a acrescentar, isto é um bocado como o artigo do Peter Norvig, ao contrário do "Teach yourself programming in 21 days", temos o "Teach yourserv programming in ten years" - http://www.norvig.com/21-days.html
E como nota final, a própria investigação está a sofrer com a facilidade com que se encontram papers. De acordo com o artigo do Economist - http://www.economist.com/science/displaystory.cfm?story_id=11745514 - o facto dos cientistas já não perderem horas a lerem papers que provavelmente não têm nada a ver com o que estavam à procura, pode resultar em menos descobertas acidentais. "Experience is what you get when you didn't get what you wanted".
Friday, August 1. 2008 at 12:22 (Reply)