A presença já não é o que era
May 04, 2008
Update 1: Por coincidência o TechCrunch tem hoje um artigo precisamente sobre a oportunidade de usar uma infra-estrutura como o XMPP para suportar um Twitter "bem feito".
Update 2: Um bom artigo do Mickaël Rémond da Process-one sobre a utilização do XMPP e do pubsub num serviço do tipo Twitter/micro-blogging.
Update 3: A malta do Psi também anda a fazer umas brincadeiras com estes conceitos (via Melo).
Durante anos, na relação que tenho com certos e determinados operadores móveis (o plural é só para confundir, faz de conta que os MVNOs também contam vá), defendi que o Instant Messaging não tem interesse absolutamente nenhum num telefone móvel. Não tem interesse porque todas as pessoas neste País têm um telemóvel (ou vários) e estão permanentemente ligados, a maior parte durante a noite inclusive. Os portugueses estão permanentemente disponíveis com o telemóvel, é seguro dizer. E portanto colocar uma aplicação de IM no telefone acrescenta o quê em relação ao SMS que é praticamente gratuito e que possivelmente funciona na mais bem trabalhada aplicação nativa que qualquer aparelho pode trazer? Informação de presença não é. Nada, não há absolutamente nada de relevante no IM no telemóvel a não ser uma ligeira sensação efémere de que estamos na crista da onda a falar com os amigos do PC num teclado de 9 teclas. E então quando me falavam de tarifários a cobrar à mensagem...
Mas estas coisas já se sabe, se o vizinho do lado dá um pontapé numa pedra nós temos que um pontapé num calhau, mesmo que arrisquemos partir o dedo grande. E imagino que seja assim em todo lado, aliás, sei que é. E durante anos isto fez-me muita confusão. Mais tarde percebi que estes e outros produtos que os operadores móveis querem replicar da Internet do PC (da qual só percebem a popularidade, mas não a mecânica) são apenas uma fachada para comunicar aquilo que realmente interessa no mundo móvel (por enquanto): o tarifário de voz, SMS e dados. Adiante.
No outro dia, com amigos, divagava sobre o que é que torna o twitter tão inútil e tão viciante ao mesmo tempo. Não são certamente as notificações gratuitas por SMS, já desliguei isso tudo, não sobrevive ao teste da vida real. Não é também pelo social networking, já estamos no período post-web2.0 certo? Nem o facto de ser micro-blogging e de nos exigir uma grande capacidade de síntese, leia-se só permitir 140 caracteres por mensagem provavelmente por causa da história dos SMSes (para mim isto é uma limitação). E também não deve ser por causa dos inúmeros problemas de performance e de disponibilidade que o serviço tem sofrido ultimamente. Mas há algo, porque aquilo agarra-nos. O que é? Eu diria que é isto:
1. Ranking. A nossa eterna e involuntária necessidade de nos superarmos e de nos pavonearmos junto dos nossos mais próximos que nos está cravada no DNA, e não se armem em insensíveis a isto. Ele é meter um número ao lado da fotografia do utilizador e é vê-lo matar-se por fazer cresce-lo. Neste caso o "game score" é o número de "followers" de cada um tem. Não é um grande número e até o metem ali disfarçado de "stats" mas é um número. Ver "How Game Mechanics Can Make Your App More Fun".
2. Social Networking, se calhar afinal até é. Qual é o detalhe? A grande diferença para o Instant Messaging é que as relações individuais são públicas para todos. Qualquer um pode ver no meu perfil quem são as pessoas que eu sigo. Há aqui uma pirâmide de reputação quase perversa mas que funciona muito bem. A primeira coisa que eu fiz quando revisitei o twitter e o comecei a usar mais regularmente foi vasculhar os perfis das pessoas por quem eu mais reconheço interesse, e aí encontrar umas outras tantas que subscrevi pela reputação herdada dos anteriores.
3. Não é push (ver ponto 4 sobre o melhor do E-Mail). As mensagens são lidas on-demand, com a periodicidade que eu bem entender ou à distância de uma short-key dependendo do client que usar (twitterrific no meu caso), não sou incomodado com popups de janelas e notificações de growl. Isto lembra-me que usar o Twitter através do bot de XMPP é adulterar esta característica, nunca o faria.
4. A mais importante e voltando à introdução do post, é instant messaging mas sem presença. Agrega as principais vantagens do IM, do IRC e do E-Mail: É instantâneo e é social, mas não tem informação de presença. Eu já disse mais do que uma vez que a presença está em desuso. Porquê? Porque nós, com o advento da mobilidade e com os saltos qualitativos que os dados móveis, o acesso aos portáteis, os "smart-phones", as redes wifi e o acesso à Internet em geral deram nos últimos anos (e vão continuar a dar), estamos-nos a tornar todos deuses do online. Nós estamos a ficar progressivamente omnipresentes na Internet, quer gostemos quer não.
O meu ponto, para não desviar muito, é: até que ponto a presença vista como informação de disponibilidade, um dos bastiões das plataformas emergentes de messaging dos últimos anos (IMS, SIP e SIMPLE, XMPP, etc.), continua a ser importante?
Do meu ponto de vista continua a ser importante mas talvez não nos moldes em que inicialmente foi pensada, não apenas para transportar a disponibilidade dos meus correspondentes. A funcionalidade da presença pode ser muito interessante se puder ser extendida e se puder transportar outro tipo de meta-informação associada à minha pessoa e que nos dias que correm é muito mais importante do que a minha conhecida omnipresença na Internet, nomeadamente: Geo-localização, avatars, estado de espírito, a música que está a tocar no iTunes, etc, etc, etc.
E é talvez aqui que o XMPP, como plataforma extensível de messaging e de presença, pode marcar a diferença em relação a outras. Isto sim, faz sentido. Já dei o toque à malta da Process-One para fazerem uma proposta ao Twitter, agora que eles estão a ponderar mudar de plataforma. (smile).



mau, isto não pode ser só o nome... comecei hoje de manhã a escrever um post exactamente sobre esse assunto.
Sunday, May 4. 2008 at 00:49 (Reply)
Twitter parece-me ser presence com spooling e sem obrigatoriedade de autorização. Isto é o tipo de coisa que devíamos (se calhar) estar a oferecer em IM como opção. Acho que já me ocorreu um um mecanismo cool para integrar isto
Outro ponto: Não é pull. Isso é mais uma questão de como o cliente trata os dados, sim tecnicamente são polling, mas logicamente é push.
Sunday, May 4. 2008 at 01:12 (Link) (Reply)
Logicamente é o que o teu client fizer. Na pratica podes usar XMPP (para tirar proveito da ligação persistente) fazer queueing das mensagens à mesma, replicando aquilo que tenho com o twitterrific.
Acho que esta conversa toda sobre XMPP vai dar toda a uma eterna pergunta: Quando raio é que o pubsub fica fechado, implementado e widespread??
Sunday, May 4. 2008 at 18:36 (Reply)
Sunday, May 4. 2008 at 03:30 (Reply)
Sunday, May 4. 2008 at 18:32 (Reply)
Eu ia responder que a presença não é binária e que tem níveis, além do que com PEP (o tal XEP-0163 que mencionas) e outros XEPs on top, tu passas a tua Presença a vários níveis (GeoLoc, Avatar, Tunes, Mood, etc, etc), mas felizmente tu tb tens essa ideia já.
Ter XMPP no telemovel é para mim uma questão de infraestrutura e não de IM. O telemovel é o melhor device para fonte de geo-location que tenho, e eu preciso de fazer chegar essa informação à rede. É também um ponto onde eu posso mudar a minha meta-presença e propagar para todo o lado.
Quanto ao twitter, sim, ter aquilo em real-time é loucura. Já me deixei disso. Acho que podes classificar o Twitter como IM fire-and-forget, um IM em que a parte boa é que não vais receber a resposta em real-time. É um IM sem muito risco de perder produtividade, envias sabendo que a boca que estás a mandar não passa para uma conversa de 5 minutos.
No meio disto tudo, o que faz o XMPP pelo twitter? Bem, eu sei que não usas o Bot, mas se tiveres uns minutos, liga-o, e espera por uma mensagem com o XML debugger aberto. Podes desligar, e ficar impressionado
Para te poupar o trabalho, as mensagens IM vem com um documento Atom estupidamente rico. Sim, tem um com o textinho, mas o resto é muito muito melhor. Tem lá tudo que é preciso para que o teu cliente de IM actual seja tb o teu twirrific: mensagens desses sites não são poped-up mas vão parar ao teu Message Center. Tenta lá Cmd-2 no teu cliente de IM: passa-se aquilo para um look tipo twirific e já tá...
A parte que sempre me rio quando os twitter dudes dizem que a vasta maioria dos acessos ao site dele são à API, é pensar em todos os twiriffic a fazerem pooling louco ao site de x em x minutos. É um desperdicio brutal. Se em vez disso tivessem uma ligação XMPP e usassem isso para obter as notificações, toda a gente ganhava com isso.
A minha relação amorosa com o XMPP foi sempre mais na parte de automatização e app2app que propriamente IM. Por isso o twitter é para mim o exemplo mais triste, o fracasso mais interessante, uma das maiores oportunidades perdidas para ter uma aplicação verdadeiramente a correr sobre XMPP sem ser IM. Enfins, talvez o próximo twitter seja mais inteligente.
Mas nem tudo está perdido. Basta olhar para esta página, por exemplo: http://groups.google.com/group/twitter-development-talk/web/jabber-pubsub
Basicamente hoje, podes usar XMPP para receber TODAS as status changes. A maior parte dos mashups que precisam de aceder ao stream de status estão a usar isto.
A ver vamos.
Inté,
Sunday, May 4. 2008 at 09:33 (Link) (Reply)
Eu acho que eles andam preocupados demais com a questão da estabilidade do serviço para pensar no resto, o que é um pena, sinceramente. Como eu os percebo, de certa maneira.
Anyway, o meu post também uma reflexão para mim. Às vezes precisamos de meter as ideias por escrito para elas ganharem estrutura.
Eu acho que há uma grande janela de oportunidade para o XMPP com o mundo móvel, com o pubsub e com as lições de comportamento e sucesso que podemos retirar do IM, E-Mail e, claro, o Twitter.
Sunday, May 4. 2008 at 18:29 (Reply)
no telemóvel já nos habituamos a que o outro lado pode não estar online, leia-se, tenha o telemovel desligado, esteja a falar, ou até mesmo sem rede/bateria. O IM/ou outro que se aproveite disso, vem trazer o verdadeiro significado da notificação "online".
Informação de presença não é.
Não é nada que ainda não tenhamos, verdadeiramente. É o passo para a necessidade (que concordo) de meta-informação.
Acrescentaria também mais um dado aos teus 4 pontos,
5) O facto de ser facil o lurking, estar a viver a vida de alguém, seja por acções (filmes,novelas,shows) seja por texto (blogs, twitter, IM).
Ainda sobre o teu ponto 3, o facto de não haver um grande arquivo de "log" das mensagens públicas de quem segues, da-lhe uma necessidade e vicio de estar sempre ligado para não perder pitada. Ainda na sexta quando ia para o pub, disse "vou deixar o laptop ligado para receber as notificações do twitter e ler mais tarde".
até que ponto a presença vista como informação de disponibilidade, um dos bastiões das plataformas emergentes de messaging dos últimos anos (IMS, SIP e SIMPLE, XMPP, etc.), continua a ser importante?
Muda aquilo que não tens actualmente. Pegas na tua lista telefónica e queres saber se algum dos teus amigos já acordou e o que ele está a fazer num domingo de manhã, antes da missa
Sunday, May 4. 2008 at 10:57 (Link) (Reply)
Quanto ao resto já percebi que tenho de estar mais atento ao teu "projecto"
Sunday, May 4. 2008 at 18:32 (Reply)
Lousy first time user experience. Facilitava se tivesses amigos que usassem realmente a coisa. Sempre podes criar um perfil e importares para lá a tua address book, para ver quantos deles tem perfil. Facilita a adopção da coisa.
Sunday, May 4. 2008 at 19:20 (Link) (Reply)
- lista de contactos: tenho sido muito cauteloso com quem adicione, é um pouco como referes, escolhes umas pessoas outras adicionas porque não queres dizer que não... etc.. o certo é que o meu attention span tem limites, claro e não consigo acompanhar todos, pelo que algum limite impõe-se!
- O aspecto que eu gosto mais do twiter é o facto de eu o considerar como a primeira app realmente transient, isto é, não limitada ao facto de eu estar online. O Twitter encontra-me quer eu esteja online ou simplesmente offline e acho que isso sim é um aspecto interessante. É uma janela aberta qd não estou online, recebo um sms, vários, não interessa e é um canal bidireccional que me permite responder se assim o entender. Se não o fizer é curioso, porque não deixo de ter uma impressão que sei o que está a acontecer online, o que claro depende de quem eu sigo...
são só umas notas mentais, claro...
mas ainda acho que este tema e em particular o plataforma de notificiações (where ever you are) tem um potencial brutal!
Monday, May 5. 2008 at 13:40 (Link) (Reply)