Expresso, Google e a estupidez
Subject: Re: ARTIGO EXPRESSO: Google e hábitos de leitura
Date: August 2, 2008 4:20:11 PM GMT+01:00
To: nelsonmarques@-----
Olá Nelson,
Começando do fim para o princípio, a Internet mudou definitivamente o nosso comportamento e os nossos hábitos, isso é visível até para o mais céptico ou desatento.
Eu, e julgo que qualquer pessoa que seja um utilizador intenso da Internet há tantos anos como eu sou, tenho mais dificuldade hoje em dia em ler um livro de ponta a pavio. Ou melhor, eu não tenho dificuldade em ler o livro, faço-o é de uma forma completamente diferente do que fazia há 5 ou 10 anos atrás, inconscientemente. Faço-a em busca da satisfação imediata, pulo capítulos ou partes desinteressantes, leio-o na diagonal, utilizo a história com um manual de referência, adultero-o. Ou seja não ofereço ao livro a atenção que ele merece, nem sequer lhe dou essa oportunidade. Não é que eu não queira, simplesmente deixei de ter os mesmo níveis de motivação para o fazer. Porque lá no fundo eu sei que o livro é comparavelmente ineficaz a recompensar-me pelo meu investimento, pelo menos no curto prazo. E o livro aqui é só a figura de tudo o que requere concentração, atenção e dedicação.
O problema da atenção, esse recurso altamente finito e precioso que os humanos têm, é na minha opinião mais grave do que a questão também actual do excesso de informação. Informação a mais não é um grande problema, houve periodos na história em que provavelmente lidámos com saltos quantitativos superiores ao que a Internet nos trouxe e safámos-nos bem, evoluímos para melhor. O problema é o tipo de informação que a Internet nos dá (e que os motores de busca privilegiam porque há um ecosistema natural de oferta e da procura igual a qualquer meio, por exemplo como a televisão), e que é em grande parte desinformação, efémere, trivial, sensacional, barata, é o fast-food dos conteúdos.
Mas os problemas surgem mesmo, como refere o artigo da CFA, quando o subconsciente toma conta do consciente e deixamos de ter critério. E é aqui que começamos a falar de estupidez, e é aqui nesta fase terminal que eu me preocupo (com expectativa, porque também acho que há muito de positivo) especialmente com as novas gerações de jovens utilizadores da Internet. Ou seja, quando um terramoto passa a ter o mesmo grau de importância que a saída de um jogador de futebol para outro clube.
Há outras questões relacionadas com o tema da atenção e do excesso de informação que merecem reflexão. O João Pedro com quem trabalho, deixou um comentário no meu post que fala sobre algumas:
Sobre os especialistas instantâneos, os grandes programadores feitos em 30 dias: http://www.norvig.com/21-days.html
Este artigo do economist é particularmente interessante porque fala de um efeito colateral que estas alterações de comportamento estão a fazer á comunidade cientifica. A extinção das grandes investigações, dos grandes estudos e dos trabalhos de fundo pode acabar também com as grandes descobertas acidentais. E as grandes invenções de todos os tempos foram acidentais. Ou melhor dito "Electronic searching means that no relevant paper is likely to go unread, but narrowing the definition of relevance risks reducing the cross-fertilisation of ideas that sometimes leads to big, unexpected advances. As a wag once put it, an expert is someone who knows more and more about less and less until, eventually, he knows everything about nothing."
http://www.economist.com/science/displaystory.cfm?story_id=11745514
Mas não quero com isto dizer que a mudança seja negativa, sobre isso não tenho certezas. A Internet foi a maior descoberta da minha geração e eu acho que o seu maior potencial ainda está por revelar. A ruptura é sempre complicada, é preciso dar tempo ao tempo (também aqui) aos vários agentes da Internet, que também é um ser vivo, aos consumidores, aos produtores e aos organizadores. A visão da Web Semântica pretende também resolver em parte estes problemas, já agora: http://en.wikipedia.org/wiki/Semantic_Web
Espero ter ajudado. Boa sorte com o artigo.
Ab, Celso.


